Durante o Setembro Amarelo, muito se fala sobre a importância do autocuidado: dormir bem, praticar exercícios, manter vínculos sociais e procurar ajuda quando necessário. Sem dúvida, essas atitudes são essenciais para a saúde mental. Mas, como alerta Rodrigo Oliveira em seu artigo “Setembro Amarelo não é só autocuidado: como as políticas públicas moldam a saúde mental”, publicado pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, o bem-estar psíquico não depende apenas das ações individuais. Ele é fortemente influenciado pelo ambiente em que vivemos e pelas condições oferecidas pelas políticas públicas.

Oliveira destaca que fatores como transporte precário, escolas em péssimo estado, serviços de saúde sobrecarregados, bairros inseguros, falta de saneamento e ausência de oportunidades de emprego criam estressores permanentes que afetam diretamente a saúde mental. A Organização Mundial da Saúde reforça que determinantes sociais — como educação, habitação, saneamento, mobilidade e segurança — exercem papel decisivo no bem-estar psicológico, enquanto o World Happiness Report evidencia que apoio social, qualidade ambiental e confiança nas instituições impactam significativamente a felicidade das pessoas.

Os números apresentados no artigo são preocupantes. Em São Paulo, houve 199.879 atendimentos ambulatoriais por ansiedade e depressão em 2023, representando aumento de 43% em relação a 2022. Apenas no primeiro semestre de 2024, 111 mil atendimentos foram registrados. No âmbito nacional, o SUS contabilizou 11,5 mil internações por lesões autoprovocadas em 2023 — o equivalente a 31 por dia e um aumento de 25% em relação a 2014. Esses dados mostram que a pressão sobre a saúde mental é real e crescente.

O cotidiano urbano também contribui para o estresse. A pesquisa Viver em SP 2024 – Mobilidade Urbana revela que os paulistanos gastam, em média, 2h25 por dia em deslocamentos, chegando a 2h47 para quem depende de transporte público. Esse tempo adicional de deslocamento, que poderia ser usado para descanso ou convívio social, transforma-se em cansaço, estresse e perda de qualidade de vida.

Portanto, a prevenção ao suicídio e a promoção da saúde mental não podem se limitar ao autocuidado individual. É necessário olhar para orçamento, planejamento, governança e fiscalização, garantindo cidades menos hostis e mais justas. Serviços públicos de qualidade e escolhas administrativas adequadas são essenciais para proteger a saúde mental da população.

Neste Setembro Amarelo, é fundamental compreender que a saúde mental é resultado de interações complexas entre o indivíduo e seu ambiente. Autocuidado é importante, mas não basta quando o contexto urbano e social contribui de forma constante para o adoecimento. Como lembra Rodrigo Oliveira, esperar que o cidadão desenvolva uma “resiliência infinita” diante de serviços precários e da violência cotidiana é simplesmente irreal.

Referência:
Oliveira, R. (2025). Setembro Amarelo não é só autocuidado: como as políticas públicas moldam a saúde mental. Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.

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